domingo, 30 de agosto de 2026

A rotulação desonesta.

 



Quando "radical" vira argumento


Há uma cena que se repete nas igrejas reformadas do Brasil, e ela quase nunca muda de roteiro.

Alguém sustenta um ponto de doutrina que está escrito, com todas as letras, na Confissão que a igreja subscreve. A resposta que recebe não trata do ponto. A resposta é um nome: radical, extremista, sem amor, farisaico. E a conversa termina ali. Ninguém precisou abrir a Confissão, examinar a Escritura ou apresentar um contra-argumento. Bastou dar um titulo ofensivo à pessoa.

Vale examinar o que a Escritura e os Padrões de Westminster dizem sobre esse tipo de troca. Inclusive — e principalmente — sobre o que eles exigem de quem se considera do lado certo.

O que o nono mandamento manda fazer

Costumamos ler "não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êx 20.16) como uma proibição de mentir sob juramento. O Catecismo Maior vai muito além disso.

Na pergunta 144, ao listar os deveres exigidos pelo mandamento, ele fala em preservar e promover a verdade entre os homens e o bom nome do próximo; em comparecer e sustentar a verdade; em ter uma estima caridosa do próximo; em defender a inocência alheia; em receber prontamente um bom relato e resistir a acolher um mau relato; em desencorajar caluniadores e bajuladores. E, no fim da lista, um dever que quase nunca se cita: guardar as promessas legítimas.

Duas coisas saltam daí.

A primeira: defender a verdade é dever, não excesso de temperamento. "Comparecer e sustentar a verdade" está no mesmo mandamento que proíbe a calúnia. Quem defende publicamente aquilo que a igreja confessa não está cometendo um deslize de personalidade que os irmãos precisam tolerar com paciência. Está fazendo exatamente o que o mandamento pede. O rótulo de "radical" não descreve um vício — descreve um dever, quando o dever se tornou incômodo.

A segunda: cumprir o que se prometeu é matéria de veracidade. Quem subscreve os Símbolos de Fé diante de um Conselho assume um compromisso público, e o Salmo 15.4 louva justamente aquele que jura com dano próprio e não se retrata. Eclesiastes 5.4-5 diz o mesmo de forma mais dura: melhor não votar do que votar e não cumprir. Ensinar contra aquilo que se jurou sustentar não é questão de ênfase pastoral nem de liberdade de consciência. É questão de verdade. E é precisamente por isso que a igreja tem foros eclesiásticos, e não caixas de comentário, para tratar do assunto.

O que ele proíbe — e proíbe dos dois lados

A pergunta 145 é a página mais desconfortável dos nossos Padrões, e o desconforto é distribuído com justiça. Ela condena caluniar, difamar, mexericar, escarnecer, injuriar; a censura temerária, dura e parcial; interpretar mal intenções, palavras e ações; agravar faltas pequenas; levantar boatos; acolher maus relatos e fechar os ouvidos à defesa justa; a suspeita maligna.

Chamar um irmão de extremista porque ele sustenta o que a Confissão diz é censura temerária somada a má interpretação de intenções. É trocar o exame do argumento pela atribuição de um motivo — e atribuir motivo é sempre mais rápido do que refutar tese.



Mas a mesma lista alcança quem está defendendo a ortodoxia, e alcança com a mesma força.

Presumir o coração de alguém a partir do comportamento dele é pecado contra o nono mandamento. 

Essa é a parte que os dois lados de qualquer polêmica costumam pular.

Por que o rótulo funciona tão bem

"Justo parece o que é primeiro a expor a sua causa; mas vem o outro e o examina" (Pv 18.17). O provérbio pressupõe que haverá exame. O rótulo existe para que não haja.

Sua eficácia retórica está em substituir uma pergunta difícil — isto que ele afirma é verdade? — por uma pergunta fácil e já respondida: que tipo de pessoa afirma isso? A primeira exige abrir o texto. A segunda exige apenas um adjetivo. E, uma vez colado o adjetivo, qualquer coisa que a pessoa disser depois passa a ser lida como sintoma, não como argumento.

Vale registrar aqui um limite que a honestidade impõe. A Escritura descreve com precisão a dinâmica de quem foge da luz porque a luz expõe suas obras (Jo 3.20), e descrever essa dinâmica é legítimo. Aplicá-la como veredito sobre um irmão específico não é. Ninguém aqui lê corações. Podemos julgar afirmações, atos e votos quebrados — que são públicos e verificáveis. Motivos, não. No instante em que a defesa da ortodoxia passa a diagnosticar a alma alheia, ela adota o método que estava denunciando.

O ponto cego de quem tem razão

O maior perigo de quem está certo não é perder o argumento. É ganhar o argumento e perder a mansidão no caminho.

Paulo escreve que a correção deve ser feita "com espírito de brandura", e acrescenta imediatamente: "guarda-te, para que não sejas também tentado" (Gl 6.1). A tentação de que ele fala não é a de errar na doutrina. É a de acertar na doutrina e adoecer no coração. A 2 Timóteo 2.24-25 diz que ao servo do Senhor não convém viver em contendas — não porque a verdade seja negociável, mas porque a contenda tem gosto próprio e vicia.

E há Efésios 4.31, que não abre exceção para quem tem razão: longe de vós toda amargura. O texto não diz "longe de vós toda amargura injustificada". A amargura justificada também precisa ir embora, e ela é a mais difícil de identificar, porque vem com documentação.

Existe um teste simples para saber se ainda estamos no terreno da fidelidade ou já cruzamos para o da vingança: a doutrina precisa de defensores; a minha reputação não precisa. Cristo, "quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente" (1 Pe 2.23). Ele defendeu a verdade até a morte e não defendeu a si mesmo uma única vez. Nós costumamos inverter as duas coisas e chamar a inversão de zelo.

O caminho que a Escritura prescreve

Quando há ofensa real, o procedimento não é obscuro. Mateus 18.15-17 estabelece três degraus: primeiro entre os dois, a sós; depois com uma ou duas testemunhas; e só então diante da igreja. Provérbios 25.9 reforça a mesma ordem — pleiteia a causa diretamente com o teu próximo.

Nenhum desses degraus é a internet.

Isso não significa silêncio. Significa endereço. Erro doutrinário público pode e deve ser respondido publicamente, no plano das ideias. Ofensa pessoal se resolve em conversa e, se não se resolver, nos foros que a igreja mantém exatamente para isso. Um Conselho existe para julgar aquilo que uma postagem não consegue julgar: com as duas partes presentes, com direito de defesa e com consequência real.

Confundir os dois planos é o erro que mais estrago faz. Quem responde a uma ofensa pessoal com uma tese pública transforma a doutrina em instrumento de uma briga particular — e, com isso, entrega ao adversário a única prova de que ele precisava para o rótulo colar.

O que sobra no fim

Firmeza sem amargura é um equilíbrio raro, e ele não se sustenta por força de vontade. Duas perguntas ajudam, feitas antes de publicar qualquer coisa:

Estou defendendo a confissão ou o meu nome? As duas coisas se parecem muito de dentro, e não se parecem nada de fora.

Se o irmão que me ofendeu morresse hoje, eu ficaria em paz com o que escrevi a respeito dele? Não com o que ele fez comigo — com o que eu escrevi sobre ele.

Sustentar a ortodoxia da Igreja Presbiteriana do Brasil não é extremismo. É o que se prometeu fazer, diante da igreja e de Deus. Mas a mesma lei que condena quem quebra votos e distribui rótulos.

At.te. Presbítero Ricardo Bruno

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